Prezada Dr. Brundtland:
A Associação da Talidomida da Suécia (a FfdN) é uma organização para as pessoas com deficiências causada pela droga talidomida. A organização não tem afiliações com um partido político ou religioso. A FfdN foi fundada em 1962, depois do assim chamado desastre da talidomida. Cerca de 10 mil crianças ao redor do mundo nasceram de 1957 a 1964 com severas deficiências devido a essa droga “inofensiva”. A confusão se tornou ainda pior devido ao fato de que a talidomida era vendida sobe pelos menos 30 nomes diferentes ao redor do mundo.
Nossa meta tem sempre sido tornar a vida das vítimas da talidomida na Suécia, Noruega, Dinamarca e Finlândia tão boa quanto possível. Mas é de importância igual para nós impedir que quaisquer novos bebês afetados pela talidomida venham a nascer!
A OMS aprovou o uso da talidomida (novamente…) em 1985. Desde então, um número desconhecido de novos bebês afetados pela talidomida nasceram, a maior parte no Brasil. Como isso pode ser permitido acontecer é um mistério para nós! Os efeitos da talidomida são notórios/famosos. Uma única pílula tomada por uma mulher grávida é suficiente para o bebê nascer sem mãos, braços, e pernas com membros mal formados. Muitos também têm lesões internas, como corações, pulmões, rins e órgão reprodutores mal formados. Cerca de 10% também nascem cegos ou surdos. Muitas das crianças morrem ao nascer devido às suas lesões.
Desde que um cientista em Israel descobriu que a talidomida é eficaz no tratamento da lepra, o uso da droga vem crescendo. Cientistas também descobriram que pessoas com alguns tipos de câncer, diferentes tumores, e doenças relacionadas com a AIDS, se não curadas são pelo menos ajudadas pela talidomida. Nós não discutimos contra isso! Se uma pessoa doente pode ser ajudada pela talidomida, então tudo bem. MAS! O preço não deve nunca ser pago por crianças inocentes que terão deficiência por toda a sua vida. É esta a situação hoje. Um número crescente de crianças na Ásia, África e América do Sul estão nascendo sem braços e pernas enquanto a senhora lê esta carta. Acreditamos que a OMS deveria mapear a incidência das vítimas de talidomida, tanto para pessoas nascidas nos anos sessenta quanto para a “nova geração”. E isso é urgente.
Há poucas semanas, houve um acerto a respeito de drogas contra a AIDS na África. África recebeu o direito de comprar medicina barata contra a AIDS. Nós aplaudimos isso mas estamos extremamente preocupados que a talidomida será uma dessas drogas. Queremos saber se a talidomida é uma das drogas aprovadas para doenças relacionadas com a AIDS, e se for, quem é responsável por impedir nascimentos de novos bebês vítimas da talidomida.
Estamos todos cientes da catastrófica situação com a AIDS em partes da África mas começar mais sofrimento devido a novas vítimas da talidomida não é a solução. Se a talidomida é para ser usada, então extremas medidas de segurança têm de ser tomadas.
A FfdN quer perguntar à OMS que ações de precaução ela irá tomar para impedir um novo desastre.
Como diretora da OMS, nós lhe incitamos a parar o abuso da talidomida. Por favor, não deixe esta terrível droga iniciar uma nova epidemia ao redor do mundo.
A Associação de Talidomida da Suécia gostaria de pedir uma reunião com a senhora como diretora da Organização Mundial da Saúde para discutir a situação e as medidas de segurança requeridas que têm de ser adotadas.
Sinceramente,
Tina Henriksson
Presidente, Conselho da Associação de Talidomida da Suécia.
WORLD HEALTH ORGANIZATION ORGANISATION MONDIALE DE LA SANTE
Dr Tina Henriksson 17 de julho de 2001
Presidente, o Conselho da Associação de
Talidomida da Suécia
c/o EX-Center, Röda Korsets sjukhus
Brinellvägen 2
114 28 STOCKHOLM
Suécia
Prezada Dr. Henriksson,
Obrigado por sua carta para a Diretora-Geral sobre o potencial do mau uso da droga talidomida. Nós compartilhamos a sua preocupação sobre o aumento do uso da talidomida, e de fato a tragédia nos anos sessenta foi um dos fatores que levou à fundação do Programa de Monitoramento Internacional de Drogas da Organização Mundial da Saúde.
Os atuais regimes de terapia de multidrogas recomendados pela OMS para a lepra não incluem a talidomida, nem essa droga é recomendada pela OMS para o tratamento de doenças relacionadas com a AIDS.
Durante 1988-1999, a FDA concedeu autorização de comercialização para o uso da talidomida como uma droga órfã para diversas indicações diferentes inclusive o tratamento de erythema nodosum leprosum, myeloma múltipla, tratamento de síndrome de definhação associada ao HIV e o sarcoma de Kaposi. Esses tratamentos foram introduzidos com um programa de “Sistema de Educação e Segurança de Prescrição de Talidomida” que foi projetado para ajudar a garantir que a talidomida nunca seria dada durante a gravidez. Porém, conforme V. Sa. observa, a talidomida é usada em muitos países para esses indicações onde não existem tais programas de segurança com o resultado de que muitos bebês estão nascendo com má-formações congênitas devido aos efeitos da talidomida.
A OMS não é uma autoridade supra-regulatória e por isso não tem condições de impor regulamentações sobre Estados Membros individuais. Nós trabalhamos no sentido de fortalecer sistemas regulatórios em países em desenvolvimento e temos um programa ativo para garantir o monitoramento de segurança de todos os remédios por meio do Programa Sobre Monitoramento Internacional de Drogas mencionado acima. Esse programa tem um banco de dados de cerca de 2,7 milhões de relatos dos efeitos adversos de 60 Estados Membros é serve para proporcionar informações para identificar “sinais de alerta precoces” dos efeitos adversos a fim de que um evento tal como a tragédia da talidomida não possa nunca mais ocorrer. Além disso, embora a OMS não recomenda o uso da talidomida, a Organização está pronta para prover conselhos no sentido de se instalar programas de monitoramento de segurança em países que estão pretendendo usar a talidomida para quaisquer das indicações previamente mencionadas.
Esperamos que esta carta lhe tranqüilizará de que a OMS sempre teve um papel apoiador em impedir o mau uso de drogas e de que estamos ativamente envolvidos em desenvolver novos recursos para responder a essa importante questão no futuro.
Atenciosamente,
Dr Yasuhiro Suzuki
Diretor Executivo
Tecnologia de Saúde e Farmacêuticos
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