Existem alternativas à talidomida
A talidomida pode ser substituída por outras drogas. Isso vale para a guerra contra a lepra, câncer e AIDS.
A talidomida é usada para a administração do efeito colateral de lepra, ENL. A droga é barata e fácil de produzir mesmo com equipamento bastante simples, e é por isso que ela se tornou a droga de escolha no tratamento de muitas doenças.
O leprologistas britânico Colin Crawford fez um levantamento de alternativas no tratamento de ENL. Tem sido a visão de vários leprologistas que a diminuição da dose da terapia MDT quimioterápica irá reduzir a severidade do Tratamento ENL com baixas doses de 10-25 mg de dapsona semanalmente, o que era a regra na Nigéria do norte nos anos sessenta, onde ENL poderia ser tratada com êxito, embora não totalmente suprimida, com a adição de 5-10 mg de prednisona diariamente.
Altas doses de dapsona desnecessárias.
Desde os anos sessenta, a resistência a dapsona aumentou e é considerado em parte devido a baixas doses da droga. Por isso, foi obrigatório dar plenas doses de dapsona – até 700 mg de dapsona semanalmente - para a lepra lepromatosa e também para aqueles pacientes com ENL. Nos países no ocidente, como os Estados Unidos, não há disseminação da doença, a resistência a droga dapsona não é um risco de saúde pública e tais doses altas não são recomendáveis.
Há também evidência que baixas doses não causam resistência a dapsona. De acordo com Colin Crawford, verificou-se num estudo que 8% dos pacientes que receberam baixas doses de sulfonas tais com sulfetrona (solapsona) desenvolveram resistência com comparação a 2% que receberam sulfonas em maiores doses como dapsona. Em Karamui, Nova Guinéa, a lepra lepromatosa foi tratada apenas com sulfonas. Reações ocorreram em 13 de 38 pacientes lepromatosos mas não pareceram suficientemente severas para requerer tratamento adicional. Lamentavelmente, o tipo da reação não foi definido mas meramente chamado de “reações à lepra” de modo que não está claro se isso era ENL. Não obstante, nem corticosteróides nem talidomida foram dados porque não foi possível prover supervisão médica. O acompanhamento desses pacientes do ponto de vista bacteriológico foi monitorado de perto com bom progresso por pelo menos seis anos. É por isso possível tratar a lepra lepromatosa em uma área altamente endêmica com bom efeito sem usar a talidomida.
Há outras alternativas na administração de ENL do que a talidomida, como a clofazimina e o ácido fucídico.
Colin Crawford dá exemplos de outras drogas que são eficazes contra ENL. Clofazimina tem um efeito quimioterápico assim como suprime ENL. Ele causa hiperpigmentação, o que pode ser um problema em pacientes com pele clara, a algumas fenazinas análogas recentes poderão ser usadas em vez dele.
Drogas antiinflamatórias não esteroidais também mostraram algum efeito contra ENL. Ácido fucídico mostrou-se ter uma atividade quimioterápica contra o bacilo da lepra e ele também parece suprimir a reação a lepra. Ácido fucídico é um agente antibacteriano, produzido pelo fungo Fusidium coccineum e na maior parte usado contra infecções de bactéria estafilococo mas também parece ter um efeito antiinflamatório e por isso seu uso em ENL, tomado por boca, não esfregado na pele.
Pode-se ver que formas alternativas de administração de ENL são viáveis e deverá ser possível evitar o uso da talidomida. Esses regimes têm desvantagens mas certamente são preferíveis aos efeitos teratogênicos da talidomida, recentemente demonstrados no Brasil.
Nenhuma comparação feita
Embora a talidomida demonstrou ser eficaz em suprimir ENL, ensaios não foram feitos comparando o benefício da talidomida contra clofazimina ou baixas doses de corticosteróides. Um teste óbvio seria avaliar a morbidade e mortalidade entre pessoas do sexo masculino e do sexo feminino no grupo em idade de reprodução. Se a talidomida é tão benéfica, então este grupo de pessoas do sexo feminino deveria estar sob séria desvantagem. Alguns países tais como a África do Sul continuaram a banir a talidomida de modo que os pacientes de lepra aqui deveriam estar sob maior risco.
Um estudo muito pequeno na Tanzânia, relatado por Colin Crawford, demonstra que é possível prevenir ataques de ENL se a quimioterapia for encerrada. Com a introdução da terapia multidroga, a OMS recomendou que a duração da quimioterapia para lepra lepromatosa não complicada pode ser reduzida para um ano. Seria racional restringir ainda mais a duração da quimioterapia na lepra lepromatosa complicada com ENL. Parando a quimioterapia, o ENL também irá parar ou ser bastante reduzido. Essa política poderia ser experimentada em centros de lepra bem supervisionados, inicialmente na Europa e nos Estados Unidos. Qualquer recaída é facilmente detectável tomando-se esfregaço de pele e determinando se houve algum aumento na quantidade do bacilo. Sem uma recaída a necessidade de talidomida tanto no curto prazo quanto para uso prolongado não seria necessário.
Muita pesquisa se concentra em encontrar drogas que reduzem a produção pelo corpo de TNF-alpha, produzida em excesso durante a infecção HIV.
Talidomida voltou à cena outra vez como um tratamento experimental para pessoas com sintomas de estágio avançado de AIDS. Alguma evidência de estudos sugerem que a talidomida pode ser muito eficaz no tratamento de debilitação (wasting) relacionada com HIV, úlceras aftosas (feridas cancróides que podem se formar na boca, esôfago e reto). Talidomida tem efeito inibitório no fator de necrose de tumores (TNF-alpha), um mensageiro químico ou citokina que facilita a comunicação entre células. Acredita-se que bloco balanceado de TNF-alpha é crítico ao “contact tune” do sistema humano. Durante a ínfecção com HIV, citokinas inclusive TNF-alpha são produzidas em excesso.
Mas não apenas a talidomida reduz a produção do corpo de TNF-alpha, diversos outros agentes têm o mesmo efeito, sulfasalazina, ciclosporina, ketotifen, N-acetilcisteina e pentoxifillina.
Uma droga antidepressiva conhecida como rolipram mostrou-se um potente inibidor de TNF-alpha no sangue. Rolipram foi primeiramente desenvolvido como antidepressivo e comercializado na Europa pela Schering AG. Ela também foi investigada como um possível tratamento para esclerose múltipla. Rolipram está disponível e é agora usada no Japão; ela também foi amplamente usada na Europa. Rolipram é pelo menos 10 e talvez 600 vezes mais potente do que pentoxifilina na inibição de TNF-alpha. Também se sabe que rolipram cruza a barreira do sangue no cérebro, o que é um critério importante para qualquer tratamento de HIV. Ela é considerada uma droga essencialmente segura, o principal efeito colateral sendo um incômodo leve gastrointestinal em doses próximas de 15 mg por dia. A dose prescrita para uso antidepressivo varia entre 0,5 a 1 mg tomado três vezes ao dia. Os direitos de desenvolvimento do rolipram nos Estados Unidos e no Japão foram licenciados à Berlex Laboratories e Meiji Seika Kaisha, respectivamente. Lamentavelmente, a droga poderá não chegar aos ensaios clínicos porque as empresas que controlam os direitos à droga não estão inclinadas a darem apoio ao seu desenvolvimento adicional. A Schering tinha apresentado um requerimento de uma Nova Droga Investigacional ao FDA há alguns anos (presumivelmente para uma indicação não relacionada com HIV), e agora não quer prosseguir na pesquisa necessária para atualizar a nova droga.
Inibe a angiogênese
Além de seus outros usos, a talidomida também inibe a angiogênese, ou o desenvolvimento de novos vasos sangüíneos que possam alimentar tumores e lesões cancerígenas – esta á a exata característica que obstruiu o crescimento normal de membros fetais nos anos cinqüenta. TNF-alpha estimula o crescimento de novos vasos sangüíneos; por isso, a inibição de TNF-alpha poderá ter aplicações contra o sarcoma de Kaposi e cânceres.
Rolipram, um antidepressivo, foi desenvolvido pela empresa farmacêutica alemã Schering. O agente pode se tornar um potente inibidor de TNF-alpha no sangue.
EntreMed, a empresa farmacêutica dos Estados Unidos que também estuda a talidomida, têm outros candidatos a drogas em suas prateleiras como a proteína Endostatin e 2-Metoxiestradiol.
Terapias antiangiogênicas inibem o crescimento de novos vasos sangüíneos bloqueando assim o crescimento de cânceres primários e metastáticos. Se se mostrar exitosa, a droga poderá reduzir o tamanho de tumores e potencialmente mantê-los no estado dormente.
O candidato mais quente da empresa é a proteína AngiostatinTM. As vantagens da proteína AngiostatinTM é que ela apoia a maneira do corpo humano de lidar com doenças. O corpo tenta bloquear ele próprio o crescimento de tecido doente mas nem sempre tem êxito. Quando incrementado com a proteína adicional AngiostatinTM, porém, este agente antiangiogênico que ocorre naturalmente poderá bloquear o crescimento de tumores deprivando-os do seu suprimento de sangue.
O uso da proteína AngiostatinTM poderá ser especialmente crítico no caso de tumores múltiplos. Quando um paciente tem tumores múltiplos, o tumor principal suprime o crescimento de outros tumores no corpo. Quando se remove o tumor principal, tumores metastáticos secundários crescem rapidamente. A proteína Angiostatin TM poderia tratar todos os tumores num paciente com eficácia e simultaneamente. A EntreMed declara que AngiostatinTM não afeta o crescimento de tecido normal como faz a radiação e quimioterapia.
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