Inglaterra


Faz agora mais de 35 anos que a tragédia da talidomida sobreveio – quando cerca de 540 bebês na Grã-Bretanha nasceram com deformidades devido a uma droga sedativa que havia sido prescrita para suas mães. O escândalo da talidomida foi o que finalmente fez pender a balança a favor de legislação do aborto em 1967. Pois, enquanto o público que naquela época não teria aceitado o aborto sob demanda como uma “escolha” ou como um método anticoncepcional, houve uma gritaria geral de que o aborto não estava imediatamente disponível para mulheres grávidas com crianças afetadas como essas.
Haviam terríveis histórias sobre mulheres desesperadas que voavam para a Suécia, implorando por um aborto porque estavam tão alarmadas com o pensamento de dar à luz a um “monstro”.

A vida humana é imprevisível; e o espírito humano tem a capacidade indomável de triunfar contra a adversidade. Esses bebês da talidomida são agora adultos e eles certamente não se sentem como “monstros”. Eles simplesmente se acham pessoas normais que por acaso não têm braços ou pernas.

“Se eu pudesse ter um transplante de braço agora, acho que não faria questão”, diz Tom Yendell, um artista talentoso que dirige, anda de esqui, viaja e cavalga, embora ele nasceu sem os braços. Ele diz que a sua vida não foi diferente da de qualquer outra pessoa fisicamente capaz, exceto que ele teve de se adaptar às tarefas rotineiras com a sua boca, pés ou queixo.

É a personalidade e atitude que contam
Tom Yendell nasceu com algo possivelmente mais útil do que os braços: uma disposição alegre, uma atitude positiva e uma vida familiar calorosa e um senso de confiança em nosso Senhor. Ele é o exemplo vivo e respirando de que é a personalidade e a atitude que contam na vida. Ele era o mais jovem de cinco crianças: seu pai era padeiro, sua mãe enfermeira, e quando ele nasceu em 1962 sem braços seu irmão mais velho disse: “Bem, ele não vai jogar rugby para a Inglaterra, mas talvez ele jogue futebol para o Tottenham”.

Entender o choque foi tremendamente difícil para a família mas eles conheceram o maravilhoso americano, Dr. Wilke, que ele próprio também nasceu sem braços – por uma aberração da natureza – que mostrou a eles que era possível, apesar de tudo, levar uma vida realizadora. O exemplo é vital: se você vê que outras pessoas podem realizar algo difícil, isso lhe dá a coragem de tentar.

Nunca encontrou rejeição emocional
Ele nunca encontrou a rejeição emocional que algumas crianças vítimas da talidomida encontraram; algumas foram dadas em adoção ou foram virtualmente abandonadas por seus pais. Tom conhece um homem afetado pela talidomida – um exitoso advogado – cuja mãe ainda diz: “Eu quisera que tivessem me oferecido um aborto”. E veja só, diz o Tom, o homem é formidável – bem ajustado e tem sucesso. Não há como explicar as pessoas.
Tom acabando seu quadro “Rosas em florescimento”.

O Tom Yendell não é apenas feliz e realizado com o seu trabalho, ele é maravilhosamente casado, tem duas crianças jovens, Joseph Oliver, um ótimo menino de oito anos e uma filha recém-nascida, a Holly – ele chega até a dizer que está agradecido por sua deficiência.
“Talvez se eu não tivesse nascido assim não teria tido uma vida tão maravilhosa. Eu realizei tanta coisa. Fui uma influência sobre os outros. É a maneira que você olha a vida que importa, não quais pedaços de sua anatomia que estão faltando”.

É incrível ver ele chegar dirigindo seu Volvo especialmente modificado, que ele dirige habilmente com os seus pés. A reação civilizada à deficiência é não eliminar a pessoas com a deficiência mas inventar um método de ajudar o indivíduo, e a tecnologia avançou para fazer frente ao desafio computadorizando cadeiras de roda e instalando direção hidráulica em carros que podem ser manipulados com os pés. Dinheiro e tecnologias têm sido uma grande ajuda àqueles com deficiências causadas pela talidomida, diz Tom Yendell.

Não uma vítima
Ele dá palestras em nome dos incapacitados. Ele não gosta da palavra deficiente, porque é “negativa”. Ele odeia a expressão “vítima da talidomida” porque, diz ele, ele não é uma vítima mas um ser humano inteiramente funcional.

Uma parte da sua vida de que o Tom realmente gosta e obtém grande satisfação é visitar diferentes grupos, tais como Institutos de Mulheres, escolas, grupos de igreja e clubes de jovens, falando com eles sobre sua vida e sua deficiência.

“Dê-me alguém por uma hora”, diz ele robustamente. “E eu irei mudar suas atitudes para com os deficientes. Veja, são as pessoas com os corpos normais que têm o problema, a maior parte do tempo, não os deficientes. Em meus próprios olhos não sou “deficiente”. Você ainda tem as mesmas emoções, quer seu corpo seja normal ou não. Isso aparece na pintura. O que você pinta não é o que está na mão mas sim o que está no coração”.

No início dos anos sessenta, o senhor e a senhora Yendell mudaram com a sua família para Leighton Buzzard onde o pai de Tom tinha uma padaria. Tom começou sua educação formal na escola Pulfords Primary.

Um cruzamento entre o Mickey Metal e um profissional de futebol americano
Ele também nessa época recebeu seu primeiro par de braços artificiais movidos a gás, os quais Tom diz que o faziam se parecer com um cruzamento entre o Mickey de Metal e um jogador de futebol americano. Eles não eram muito úteis e não podiam substituir a complexa destreza da mão humana. Seus segundos braços eram cosméticos e tinham de ser movidos manualmente. No dia que Tom Yendell recebeu esses braços novos ele pediu à sua mãe que lhe estava trazendo de volta após ter apanhado os braços se ele poderia levá-los a escola para mostrar aos colegas. Ele recebeu permissão e conforme ele ia andando pela rua ele descobriu que podia balançar seus braços para frente e para trás até que descobriu que conseguia fazer um círculo de 360 graus com eles. Ele estava atravessando o parque brincando de “helicóptero” com seus braços quando o parafuso que prendia o braço ao ombro se soltou e seu braço saiu voando da sua manga com grande velocidade e aterrissou na grama em frente a uma velhinha sentada no banco do parque, que quase teve uma ataque do coração vendo o braço decapitado deitado ali diante dela na grama. Por fim, quando Tom fez 14 anos de idade, ele viu que não mais tinha qualquer necessidade de seus braços artificiais já que ele realizava tudo que queria fazer da sua própria maneira.

Grande incentivador da educação especial para os deficientes.
Tom Yendell foi a uma escola especial, Lord Mayor Treloar College em Alton, Hampshire, que é a maior escola e faculdade para os deficientes na Grã-Bretanha. Na Treloars ele cursou um programa de estudos de pessoas de corpo normal. Foi encorajado a trabalhar e é agora um grande incentivador da educação especial para os deficientes.

Passou o exame de direção na primeira vez
Nessa época ele conseguiu também passar o seu exame de direção pela primeira vez e era o orgulhoso dono de um novo Mini Clubman.

“Ser capaz de ter mobilidade”, diz Tom, “é uma das coisas mais importantes que me aconteceram. A independência em que isso resultou me possibilitou viajar por toda a Europa”.
Então Tom Yendell requereu e conseguiu uma vaga para obter o Grau de Artes Expressivas na Universidade de Brighton. Depois do seu primeiro ano na Brighton, ele sentiu que não havia visto nada do mundo externo e decidiu tirar uma ano de folga do trabalho na universidade. Ele já estava trabalhando voluntariamente como um líder de um clube de jovens para os Fisicamente Deficientes de Ringmer e o Clube dos Sãs (Phab), e num clube de jovens sãs em Newick. Ele queria trabalhar com Artes e assumiu um cargo como angariador de fundos para uma instituição de caridade recém-formada Pessoas Jovens Criativas Juntas (CRYPT).

Enquanto ele estava em Brighton, Tom comprou seus primeira lar em Lewes e passou a levar uma vida independente, fazendo a comida, limpeza e lavando, coisas que antigamente haviam sido feitas para ele. No ultimo ano de seus estudos, ele encontrou a Lucy, a mulher que iria ser sua esposa , em vias de cursar seu programa de fundação de Arte em Brighton.
Tom Yendell é o orgulhoso pai de duas crianças.

Tom Yendell teve a chance no ano que deixou Brighton para trabalhar em Londres para uma empresa chamada Negócios na Comunidade, uma organização que desenvolveu a era do empreendimento. Seu trabalho envolvia viajar através do país encontrando pessoas que haviam iniciado seus próprios pequenos negócios. Isso encorajou Tom a terminar em Londres e iniciar sua carreira de Artista autônomo.

Contatado pelos Artistas de Pintura por Boca e Pés
Durante esse tempo, Tom Yendell foi contatado pelos Artistas Pintores por Boca e Pés que disseram que gostariam que ele aderisse à sua Associação e em março de 1986 ele se tornou um artista aluno da Associação. A associação foi fundada em 1956 por um ótimo artista alemão, Erich Stegmann, que era aleijado quando criança. Ele fora encarcerado pelos Nazistas mas escapou da Alemanha e estabeleceu a parceria para vender o trabalho de outros artistas aleijados.

Tom sempre encontrava tempo para Realizar trabalho de caridade e voluntário. Foi devido à sua ajuda aos outros que ele foi escolhido como um do Homens do Ano em novembro de 1986, o que resultou em sua viagem para o London Savoy para receber sua citação com tais figuras conhecidas como Frank Bruno, Bob Monkhouse e Richard Branson.

No final dos anos oitenta, ele trabalhou na Faculdade Alton e Treloar durante três anos. O antigo diretor de escola havia visto a necessidade de ter membros deficientes do staff na faculdade e pediu a Tom que retornasse para assumir o cargo de coordenador de Atividades. Enquanto isso, os Pintores por Boca e Pés haviam tentado obter mais trabalho do Tom Yendell mas ele sentiu que não poderia trabalhar a partir de casa e perguntou se haveria a possibilidade da Associação comprar uma galeria que ele pudesse tocar e onde pudesse trabalhar como Artista residente.

Isso resultou em fruição em 1991, quando a Associação comprou uma antiga loja de antigüidades na pequena vila de turistas de Selborne, cinco milhas distante de Alton, Hampshire. Tom Yendell passou a organizar o espaço numa Galeria de Arte e em 29 de agosto de 1991 foi formalmente aberta por Lorde Selborne a Galeria dos Artistas Pintores por Boca e Pés. Desde então a galeria tem sido um tremendo sucesso, sendo visitada por pessoas de todo o mundo. A galeria exibe não apenas o trabalho dos Artistas por Boca e Pés mas tenta encontrar outros Artistas Deficientes que gostariam de exibir seu trabalho em Selborne.
Tom Yendell continua seu vínculo com a Faculdade de Treloar já que ele vive apenas uma pequena distância do campus. Ele é Presidente da Associação dos Antigos Alunos da Faculdade e visita-a regularmente.

Ele tem uma visão linda de claridade e cores
As pinturas e desenhos de Tom são encantadores. Ele é um bom desenhista e tem uma ótima visão de claridade e cores. Ele acha que herdou seu talento artístico do seu pai, que adorava decorar bolos. Ele deve ter herdado seu talento para cozinhar do seu pai também, porque ele adora cozinhar.

Se você ou qualquer um que você conheça gostaria de mais informações sobre os Artistas por Boca e Pés ou se gostaria de visitar a galeria, entre em contato com Tom Yendell, por favor:

The Mouth and Foot Painting Artists Gallery
The Plestor
Selborne
Hampshire GU34 3JQ
Telefone ou Fax: +44-1420 51 1233

Esse texto foi extraído de um artigo escrito por Mary Kenny, o qual apareceu no .Sunday Telegraph. em 24 de dezembro de 1995, e da biografia de Tom Yendell.


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